quarta-feira, 6 de julho de 2011

Pesquisa aborda ‘mestiçagem’ na obra da missionária Clara Nunes



Contracapa do disco ‘Esperança’

 
Por Ana Gabriela e Gabriel Riceputi  

 O papel político e religioso que Clara Nunes deu a seu canto é estudado na pesquisa “O Canto do Brasil mestiço: Clara Nunes e o popular na cultura brasileira”, da professora Silvia Brügger, do curso de História da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). A pesquisa aborda a trajetória pessoal e artística da cantora e, a partir de sua obra, discute temas como a diversidade cultural brasileira e a ideia da mestiçagem. Iniciado em 2004, o projeto financiado pela Fapemig e CNPq rendeu, além de publicações, um projeto de extensão de manutenção do acervo pessoal da cantora, até então em posse de seus familiares, e um livro, ainda em andamento e sem data para publicação.
A professora Silvia Brügger explica que a questão central da pesquisa foi definir o que Clara Nunes entendia pelos conceitos ‘popular’ e ‘brasileiro’.  Isto porque a cantora, mesmo vivendo numa época de grandes movimentos musicais como Tropicália e Jovem Guarda, não se filiou a um movimento e se definia como uma ‘cantora popular brasileira’. Foi a partir desta discussão que a pesquisa problematizou aspectos culturais do Brasil.
Silvia explica que Clara compreendia o ‘popular’ como as manifestações produzidas pelo povo e o ‘brasileiro’ como um povo culturalmente “rico e hibrido”,  filho de um país mestiço e de desigualdades marcantes. Segundo a pesquisadora, Clara Nunes acreditava na necessidade de lutar contra estas desigualdades. Ela considerava cantar uma missão porque era por meio de seu canto que lutava a favor dos filhos do Brasil. “Clara se via como uma missionária. O sentido (do canto) era religioso pra ela. A música ‘Minha missão’, de Paulo Cesar Pinheiro e de João Nogueira, pra mim sintetiza esta postura dela. Além desta música, a gente tem depoimentos de pessoas que conviveram com ela que falaram que Clara se afirmava como uma missionária. O cantar pra ela tinha o sentido de missão: missão política, de denunciar os problemas sociais, e missão religiosa, de cumprir os desígnios do porque ela estava neste mundo”, explica a professora.
O sentido missionário era levado tão a sério que Clara, mesmo cansada com a rotina pesada de shows, não fazia restrições dos lugares em que ia cantar. “Ela cantava na França, no Japão e em Caetanópolis. No morro da serrinha no Rio de Janeiro; na quadra da Portela. Quer dizer, nos mais diferentes lugares e para públicos diversos”, argumenta Silvia.
A interpretação que Clara tinha do Brasil, país mestiço, culturalmente rico e diverso, ainda que com grandes conflitos sociais, deu à pesquisa a oportunidade de pensar a diversidade cultural brasileira e problematizar as discussões sobre a mestiçagem.  De acordo com Silvia, a idéia de mestiçagem muitas vezes se liga ao conceito de democracia racial, por sua vez associado à obra do sociólogo Gilberto Freyre. A professora explica que a crítica à ideia da democracia racial e à ideia de mestiçagem é que estas perspectivas encobrem diferenças e negam conflitos. “Seguindo esta linha de raciocínio, somos todos iguais, posto que todos mestiços. Portanto, não existem diferenças a serem afirmadas e nem conflitos”, diz.
Para a professora, entretanto, crer num Brasil mestiço não significa deslegitimar as diferenças. “Até que ponto a afirmação de um Brasil mestiço nega a afirmação, por exemplo, de uma identidade negra no Brasil?”, indaga a pesquisadora. “O que tento fazer a partir da obra de Clara é mostrar que é possível se pensar a mestiçagem de outra forma. Quer dizer, não é preciso se negar a mestiçagem para se afirmar a negritude. E nem toda afirmação da mestiçagem significa ausência de conflito. Acho que dizer que nós somos culturalmente e mesmo biologicamente mestiços é um dado inquestionável. Manifestações como congado cruzam matrizes culturais muito distintas. Mas, ao mesmo tempo, isso não significa que não existam conflitos, exploração e discriminação racial. Portanto, faz sentido afirmar que, mesmo dentro da mestiçagem, existem diferenças”, defende.
Outra conclusão da pesquisa foi que Clara Nunes transitava por diversas culturas e religiões. Embora a imagem da cantora seja mais freqüentemente ligada às religiões afro-brasileiras, Silvia explica que Clara tinha outras vivências. “Ela não vai passando de uma religião para outra. Ela vai retrabalhando estes universos religiosos e percebendo o que eles têm em comum. Clara freqüentava uma quantidade enorme de terreiros de umbanda e candomblé. Ia a centros cardesista; de vez em quando ia à igreja e comungava”, comenta.
Para recolher o material de análise, a pesquisadora conversou com pessoas que conviveram com a cantora, analisou documentos pessoais, material jornalístico e fez análise da discografia. A pesquisa usou a História Social da Cultura como referencial teórico, campo de abordagem em voga no Brasil, sobretudo, a partir da década de 80. O campo dá ênfase à construção humana dos aspectos culturais. 

Biografia

 
do site lastfm.com.br


Clara Nunes nasceu em 1942, na atual cidade de Caetanópolis, Minas Gerais, antigo povoado do Cedro. Órfã do pai Manuel Ferreira de Araújo aos dois anos e da mãe Amélia Gonçalves Nunes aos quatro, foi criada pelos irmãos mais velhos. Mesmo assim, herdou a bagagem musical que o pai deu a família. Manuel era violeiro e chefiava a folia de reis da região. Ainda criança, Clara já cantava no coral da igreja e em peças teatrais. Na adolescência, ela se mudou para Belo Horizonte, cidade onde finalmente foi descoberta como artista. Clara trabalhava em uma fábrica de tecidos e cantava em feiras. Foi quando se apresentava numa barraca de quermesse, que o músico Jadir Ambrósio a ouviu cantar e passou a levá-la para se apresentar na noite, nos bares e nas rádios locais.
O primeiro grande marco da carreira de Clara aconteceu quando ela participou do “A voz de ouro ABC”, em 1961, em que venceu a fase mineira do concurso e ficou em terceiro lugar na apresentação final em São Paulo. Depois disso, a cantora assinou contrato com a rádio Inconfidência e ganhou um programa de TV em Belo Horizonte. Em 1965, ela, já no Rio de Janeiro, assinou contrato com a gravadora Odeon. Seu primeiro LP, ‘A voz adorável de Clara Nunes’, saiu um ano depois e, como demais Lps do inicio de carreira, foi voltado para a música romântica, bolero e samba-canção.
Com a pouca vendagem dos discos, a gravadora decidiu redirecionar a carreira de Clara. Em 1970, o radialista Adelzon Alves passou a ser o responsável pela produção artística da cantora. Ele tinha programas na Rádio Globo dedicados à samba de raiz, o que já assinalava o novo direcionamento que iria tomar a carreira de Clara Nunes. A partir daí, ela passou a cantar não somente o samba, mas outros estilos e gêneros das tradições populares brasileiras, como o frevo e os cantos de trabalho. Foi nesta fase em que passou a buscar nessas tradições uma nova trajetória para sua carreira artística. Em 75, Clara lançou ‘Claridade’ já sob a tutela do violinista Hélio Delmiro. O próximo disco, ‘Canto das três raças’, foi produzido por Renato Corrêa e Paulo Cesar Pinheiro, com quem a cantora se casou e teve vasta parceria musical. Clara lançou mais 6 discos: ‘ As forças da natureza’ (1977), ‘Guerreira’(1978), ‘Esperança’ (1979), ‘Brasil Mestiço’ (1980), ‘Clara’ (1981) e ‘Nação’ (1982).
A pesquisadora Silvia Brügger explica que, apesar de ter flertado com diversos gêneros musicais, Clara fazia questão de não se ater a rótulos: “Ela ficou conhecida como uma sambista, mas afirmava que não queria ser vista nem como sambista, nem como cantora de candomblé. Ela dizia: ‘Eu sou uma cantora popular brasileira e quero cantar de tudo. De música romântica a sambas, canto de trabalhos e jongos’”, comenta.
Clara Nunes morreu em 1983, aos 39 anos, devido a uma parada cardíaca, resultado de complicações de uma operação de varizes. 

Perfil – Silvia Brügger

Com pós-doutorado em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Silvia Brügger estuda a história do Brasil, principalmente patriarcalismo, escravidão e período colonial. No pós-doutorado, dedicou-se ao estudo da história a partir da musica brasileira. “A partir de minha aproximação com os estudos da cultura popular, passei a dar atenção especial à música enquanto objeto e fonte para o conhecimento histórico. Neste sentido, desenvolvo pesquisa sobre a vida e a obra da cantora Clara Nunes, que me permite problematizar questões relativas à relação entre cultura popular e a indústria cultural, à identidade nacional, ao universo cultural afro-brasileiro, sobretudo no que concerne ao aspecto religioso e à abordagem biográfica na história. O referencial teórico-metodológico da história oral também passou a compor minhas investigações”, afirma Silvia.
A pesquisadora tem planos de realizar um projeto mais amplo, com título provisório de “As intérpretes do Brasil”, em que pretende comparar obras de cantoras que falam de um Brasil popular, como, além de Clara Nunes, Maria Bethânia e Nara Leão. Silvia Brügger é professora adjunta do curso de história da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). 

Fonte:



 

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Fobia social: sintomas, diagnóstico e tratamento

Laura Vaccarini, Natasha Terra e Suellen Passarelli

A estudante Anai, 21, começou a passar por situações bastante complicadas no seu cotidiano em 2009. Ela sentia muito medo de andar sozinha nas ruas, tinha a sensação de que, a qualquer momento, poderia desmaiar, e, como agravante, sofria com a ideia de que se desmaiasse não teria ninguém para socorrê-la. Nestes momentos de pânico, Ana conta que suava muito, o braço endurecia, sentia falta de ar e enjôos. Os constantes momentos de ansiedade e tensão passaram a atrapalhar a vida da estudante, que não se alimentava mais direito. “Por causa do nervosismo, qualquer comida me fazia mal, então me alimentava muito mal’, explica. Ana disse que, então, chegou ao seu limite. “Até que chegou um ponto em que o medo tomou conta de mim e eu não consegui mais ficar sozinha em casa e também não conseguia ir sozinha até a esquina de casa. Além disso, eu sentia uma angústia enorme, um aperto no peito, tinha crises de choro sem explicação”, confidenciou.
Assim como Ana, milhões de brasileiros sofrem de transtornos de ansiedade, que são transtornos psíquicos que ganharam denominações diferentes dependendo da área, tais como “Fobia Social” ou “Síndrome do Pânico”. Tanto o diagnóstico quanto a nomenclatura do distúrbio e as formas de tratamento dividem psicólogos, psiquiatras e psicanalistas.
Para a psiquiatria, fobia social é um transtorno psicológico associado à baixa autoestima e ao medo de críticas. De acordo com a psiquiatra Maria Angélica Silva Vaccarini, a pessoa com esta fobia passa a evitar as situações desencadeantes, podendo resultar em isolamento social quase completo. Geralmente, as pessoas que sofrem desse distúrbio são pessoas ansiosas e vulneráveis ao julgamento de outros. O tratamento é feito com uso de medicamentos e psicoterapia. Maria Angélica também explica que, para a Psiquiatria, fobia social é um dos tipos, dentre vários transtornos de ansiedade. Esta nomenclatura também pode ser adotada pela Psicologia, dependendo da linha teórica que siga.
O psicólogo Ary Fialho de Menezes complementa afirmando que “a classificação das doenças é feita pelos sinais e sintomas que estão associados àqueles fenômenos”. É possível saber qual a doença de uma pessoa pelo relato ou pela observação do que está lhe acontecendo. “O transtorno de ansiedade tem certas características que o especialista, ao escutá-las ou observá-las, saberá diferenciar, por exemplo, de uma fobia. Também pode acontecer de uma pessoa ter mais de um transtorno”.
Para a psiquiatra, a fobia social é um quadro clínico centrado em torno de um medo de expor-se a outras pessoas em grupos comparativamente pequenos, levando a evitar situações sociais. Segundo Vaccarini, os sintomas podem ser constatados nos momentos em que a pessoa está enfrentando a situação que lhe causa o quadro que lhe é fóbico, podendo apresentar rubor, tremores das mãos, náuseas, vontade urgente e incontrolável de urinar, suor exagerado nas palmas das mãos, gagueira, amnésias lacunares (“brancos”), choro, sensação de desmaio, desconforto gástrico, vômitos.
Segundo Maria Angélica, é recomendado o uso de medicamentos de dois grupos farmacológicos – ansiolíticos e antidepressivos, que serão combinados conforme a intensidade dos sintomas, a gravidade do quadro, o tempo de adoecimento. Isto é, será adequado o tratamento a cada caso que o paciente nos apresente como seu sofrimento. [i]Ana conta que precisa tomar um antidepressivo forte e caro e que deve diminuir a medicação gradativamente para que não ocorra uma nova crise.
“Não se diz cura em Psiquiatria, pois a pessoa continua funcionando e seu perfil ou suas tendências de personalidade poderão permanecer, ou se manifestar. Se a pessoa é ansiosa, permanecerá ansiosa, mas poderá deixar de ser fóbica-social, melhorando muito sua qualidade de vida. Isto é melhora, mas não cura. Cura em Medicina seria a ausência total de uma doença. Aqui não há doença, nem ausência total de sintomas”, afirma Maria Angélica Vaccarini.
A estudante afirma que hoje tem uma vida normal com a meta de parar de tomar a medicação até o fim deste ano.  “As crises de pânico são decorrentes de uma ansiedade muito grande. Se eu tivesse descoberto que sofria de uma ansiedade muito grande e tivesse me tratado eu não teria chegado ao ponto de ter crises de pânico e ter que tomar uma medicação que além de muito cara é fortíssima”, contou.


[i] Ana é um nome fictício criado para preservar a fonte que não quis se identificar.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

“Tom Regional: a voz dos filhos da terra” resgata a história do jornalismo regional

 Laura Vaccarini, Natasha Terra, Suellen Passarelli

A professora Filomena Maria Avelina Bomfim, do curso de Jornalismo da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), lançou no último dia 17 o livro "Tom Regional: a voz dos filhos da terra". A obra é um conjunto de monografias e artigos trabalhados com os alunos da cidade de Arcos, interior de Minas Gerais. Serve como parâmetro de estudo sobre os processos de comunicação regional para as pessoas interessadas na área de comunicação social.
O trabalho iniciou-se em 2004 com auxilio do ex-aluno Roni Peterson na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG). O objetivo era reunir, em um livro, artigos sobre o jornalismo regional para divulgar a produção qualificada de alunos do interior.
Segundo Filomena, os trabalhos possibilitaram que ela conhecesse a mídia regional, uma vez que até então era a primeira vez que a professora morava no interior. Além disso, a qualidade dos projetos a motivaram para desenvolvê-los em congressos e colóquios, mesmo com os empecilhos encontrados durante as pesquisas.
Direcionado para professores, acadêmicos, comunicadores de Jornalismo, a coletânea de 14 trabalhos aborda o conceito de jornalismo regional em Minas Gerais, entretanto o tema pode ser tratado de forma universal.
Sobre as dificuldades do trabalho, a professora cita a proximidade entre aluno e objeto, o que atrapalhava, muitas vezes, as entrevistas com moradores locais, já que as relações pessoais na cidade eram íntimas. Além disso, a ausência de exemplares dos jornais locais nos acervos e a falta de colaboração da população atrapalhavam o rendimento da pesquisa.
A professora afirma que, por se tratar de uma instituição particular, as pesquisas não possuíam apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig) e nem do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), já que a faculdade não possuía informações suficientes sobre as bolsas e a burocracia para consegui-las atrasaria os trabalhos.
Filomena Bomfim comentou que, como professora e pesquisadora da UFSJ, planeja desenvolver um projeto semelhante na região do Campo das Vertentes, mas com enfoque na reconstrução da história dos jornais desta região.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Alzheimer, o mal do esquecimento

O diagnóstico complicado e o tratamento caro dos idosos que sofrem com a perda de memória

Adriano Moura, Carol Argamim Gouvêa,
Íris Marinelli e Quéfrem Vieira

Quando Terezinha de Castro começou a andar sem rumo, perder a memória, falar coisas sem sentido e deixou de cuidar da higiene pessoal, a sua filha, Tereza Francisca de Castro, logo percebeu que havia algo errado. Mesmo após levá-la a vários especialistas, nem os médicos ou a família aceitavam que Dona Terezinha podia sofrer de Mal de Alzheimer. A doença foi diagnosticada em Belo Horizonte, e só então foi iniciado o tratamento adequado.
Portador de Alzheimer que vive no Albergue Santo Antônio
O Alzheimer ainda é uma doença difícil de ser diagnosticada, pois a falta de memória na terceira idade é tida como algo normal pelo senso comum. Além disso, é muitas vezes confundida com outras doenças, como as demências vascular e fronto-temporal (ver box). Para identificá-la, são necessários muitos testes, e o diagnóstico é feito por exclusão: eliminam-se todas as possíveis causas da perda de memória, para só depois diagnosticar o Alzheimer.
Segundo o geriatra Rubens Farnesi Filho, a doença é crônico-degenerativa: “A demência do Alzheimer afeta o cérebro e causa morte de neurônios, debilitando a memória e as funções cognitivas, como linguagem, mobilidade e comunicação”, explica. Dessa forma, acaba afetando o dia a dia do paciente: “A pessoa perde a habilidade de resolver problemas, lidar com finanças e de cuidar da higiene pessoal, por exemplo”, afirma Farnesi.
A perda de memória pode ser algo normal. Mas é bom observar quando se torna mais frequente ou quando o idoso começa a esquecer coisas muito importantes. É aí que entra o papel da família, que pode dizer se o costume de esquecimento aumentou gradualmente. “Esquecer de dar um recado é comum, acontece com qualquer pessoa. Mas esquecer da existência do recado pode indicar um quadro de demência”, exemplifica o geriatra.
“Minha mãe costumava andar o dia inteiro e quando chegava em casa se esquecia de que havia saído e brigava para sair novamente”, conta Teresa Francisca de Castro. A mãe de Teresa, Terezinha, que morreu há quase um ano, sofreu da doença por muitos anos e passou pelas três fases do Mal de Alzheimer. A doença começa atacando a parte do cérebro responsável pela memória recente (hipocampo) – essa é a fase inicial. Depois uma parte chamada Lobo Frontal é atingida, o que dificulta mais a capacidade de registro, em uma fase intermediária.  Por fim, o cérebro é tomado, apagando até as memórias mais antigas – o que configura o estágio mais avançado.
Foi o que aconteceu com Terezinha. No início, “ela começou a sair muito, guardar coisas escondidas no quarto, perder a noção das coisas e deixar a higiene pessoal de lado”, conta Tereza. Nesse primeiro momento, Tereza conta que a mãe não queria ir ao médico, pois acreditava não estar doente. Depois de um tombo, que causou mais danos à saúde de Terezinha, a doença atingiu a segunda fase e sua perda de memória chegou um nível muito mais elevado. A doença progrediu até um ponto em que a senhora não conseguia mais falar e manter uma comunicação com os familiares.
Portadora de Alzheimer
Apesar de ser uma doença de predisposição genética, “ter uma boa alimentação, praticar exercícios físicos e ser intelectualmente ativo” são meios de prevenir a doença, segundo Farnesi. Diabetes, hipertensão e colesterol alto facilitam o aparecimento de demências, por isso tratar esses problemas também é uma forma de evitar o Mal de Alzheimer.

Tratamento
O Mal de Alzheimer não tem cura. Os medicamentos utilizados apenas desaceleram o avanço da doença, controlam os sintomas e garantem um prolongamento da vida do paciente. “As células-tronco seriam uma saída para a doença”, afirma o geriatra Farnesi, deixando bem claro que esse tratamento ainda está em fase de pesquisa. Outra aposta dos médicos é uma vacina que está sendo estudada, mas que ainda gera muitos efeitos colaterais e por isso ainda não foi bem aceita.
O tratamento da doença é muito caro. Além do preço alto dos remédios, ainda existem gastos com vários profissionais de saúde, como neurologistas, fisioterapeutas, geriatras, enfermeiros e outros. À medida que a doença avança, o paciente fica fragilizado e sujeito a outras enfermidades, devido a quedas no sistema imunológico, a perda gradativa dos sentidos e perda de mobilidade. “A doença provoca complicações em vários órgãos, o mau funcionamento do organismo é generalizado”, afirma Rubens Farnesi.
No caso de Tereza, o plano de saúde cobriu a maioria das despesas da doença da mãe. Com este recurso, foi possível montar uma enfermaria em sua própria casa, com espaço para atendimento e tratamento médico. Mesmo assim, ainda havia muitas despesas com pagamento de enfermeiras e remédios. “No tratamento em casa eu podia dar conforto à minha mãe”, conta Tereza, explicando que os altos gastos valeram apena: “Tratamos minha mãe como um humano, não como um paciente. Os médicos tratam mais a doença do que a pessoa”.
Mas como não são todos que, como Tereza, podem bancar todas as despesas de um tratamento tão caro. Existe um apoio do governo, por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), que distribui gratuitamente os remédios e oferece serviços médicos. Entretanto, a coordenadora de enfermagem do Albergue Santo Antônio de São João del-Rei, Ana Mercês Braga, conta que “a burocracia para conseguir remédios é enorme, os pacientes tem que fazer vários exames”. Uma dica para receber informações sobre como adquirir os medicamentos com mais facilidade é procurar a Secretaria Municipal de Saúde.
No Albergue Santo Antônio, existem seis pacientes com a doença. “Dos seis pacientes que sofrem de Alzheimer, cinco recebem ajuda do estado. A que não recebe é a família que paga, por ter condições”, conta a Ana Mercês. No Albergue, os pacientes que possuem Alzheimer não recebem tratamento muito diferenciado dos outros internos, mas estão sempre sob os cuidados de enfermeiros do Albergue.

Dificuldades
Segundo Tereza Francisca de Castro, existe um descaso na área médica com relação aos pacientes de Alzheimer. Ela conta que, apesar de pagar um plano de saúde caro, houve inúmeros desentendimentos com médicos que, segundo ela, recusavam-se a oferecer um tratamento humanizado à mãe. “Eu briguei muito com um médico da equipe dela, do plano de saúde, porque ele dizia: ‘Por que você vai medir a pressão dela? Por que vai por sonda nela? Agora não adianta mais’. Ele queria deixar minha mãe morrer? Foi como se quisesse fazer uma eutanásia”, conta Tereza.
Para o geriatra Rubens Farnesi Filho, “deve existir uma estrutura de atendimento para a família dos pacientes de Alzheimer”. Além dos desgastes que os familiares sofrem ao lidar com os médicos e com o tratamento em geral, ainda existem agravantes na própria doença. “A perda da memória mais antiga dos doentes faz com que eles cheguem a trocar o neto pelo filho, por exemplo, ou a não reconhecer os parentes”, explica o médico. Isso faz com que o sofrimento do paciente se estenda aos membros da família, criando a necessidade de acompanhamento psicológico nos familiares.


Como o Alzheimer acontece (Box 1)


O cérebro fica comprometido na demência de Alzheimer porque a substância acetilcolina, que “alimenta” os neurônios começa a ser destruída por uma enzima chamada acetilcolinesterase. Com a falta dessa substância, os neurônios começam a morrer. Os medicamentos utilizados inibem a ação da enzima, ocasionando o aumento da acetilcolina no cérebro. Porém, os neurônios que já estiverem destruídos não serão recuperados – por isso é bom iniciar o tratamento o quanto antes. Além disso, há o acúmulo de uma substância milóide, causando a desorganização do cérebro. Uma vida saudável pode prevenir a doença porque as sinapses (ligações entre os neurônios) aumentam quando a atividade cerebral é intensa, fazendo com que a morte de neurônios demore mais tempo.



Alto custo (Box 2)
O preço dos remédios é acessível para poucos e a ajuda do Sistema Único de Saúde é burocrática e nem sempre se consegue o benefício.
Donepezila – o preço de uma caixa com 30 comprimidos e 10mg cada está em torno de 350 reais.
Rivastigmina – caixa com 30 comprimidos e 9mg pode custar mais de 500 reais.
Galantamina – 28 cápsulas de 24mg também estão em torno de R$500.
Memantina – a caixa do mais barato custa 100 reais e contém 30 comprimidos de 10mg.


Variedade de problemas (Box 3)
Há um leque muito grande de doenças que causam a perda de memória. Com várias opções, o Mal de Alzheimer é sempre a última alternativa no diagnóstico. Confira as diferenças entre os diversos tipos de demência:
Demência Fronto-temporal
Este distúrbio altera o comportamento. O paciente começa a apresentar mudança em sua conduta e passa a fazer coisas que não fazia antes. Alguns fazem uso de palavrões ou assediam sexualmente.
Demência Vascular:
Causada por enfartes vasculares consecutivos. A primeira perda é a mobilidade. Somente com o avanço da doença, a memória começa a ficar prejudicada.
Demências secundárias e reversíveis
São causadas por doenças infecto-contagiosas, por hipotireoidismo ou falta de vitamina B12. Depressão e doença mental também são outras formas de manifestação de demência.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Tratamento de diabetes exige mudança de estilo de vida

Suellen, Natasha e Laura

Há dez anos, a rotina da aposentada Maria Auxiliadora Passareli, 61, passou por mudanças difíceis. Ela teve que se adaptar a um novo estilo de vida e incorporou outros hábitos para tratar da diabetes. Maria Auxiliadora tem a doença do Tipo II. Apesar de ir regularmente ao médico e fazer uso diário de insulina, a aposentada comentou que não pratica atividade física e nem faz uma dieta rigorosa. Ela trata há três anos de uma ferida na perna que não cicatriza “Já tive erisipela que piorou a situação de minha perna, além de outras feridas no tendão”, explica.
O endocrinologista Carlos de Souza Campos explica que a erisipela é uma infecção de pele causada por uma bactéria e geralmente se manifesta em pernas e pés, mas pode aparecer em membros superiores, tronco e face. É tratada com antibióticos. Além desta, outras infecções são comuns em diabéticos, comenta o médico, isso porque o diabetes aumenta o risco de invasão por bactérias e fungos.
O caso de Maria Auxiliadora é hoje uma situação comum para milhões de brasileiros. De acordo com o Portal de Saúde do governo federal, cerca de 246 milhões de pessoas em todo mundo sofrem de diabetes. Essa é uma doença com proporções epidemiológicas que se dá quando o pâncreas para de produzir insulina. Isso ocorre porque o sistema de defesa do corpo mata as células responsáveis por esta produção e não tem cura.
O endocrinologista Carlos Campos explica que a doença é classificada em Diabetes Tipo I (T1) e Tipo II (T2). O primeiro tipo é mais raro, entretanto, mais comum em crianças e jovens. Também é igualmente grave, já que o paciente passa a aplicar insulina, uma vez que seu pâncreas não a produz mais. O T2 aparece em adultos com vida sedentária, excesso de peso e, principalmente, se há algum membro da família com este tipo de diabetes.
A nutricionista Adriana Ribeiro de Abreu explica que a glicose normal varia de 60 e 100mg/dl. Entretanto, a pessoa com valores entre 101 e 125mg/dl é considerada intolerante à glicose. Já o pré-diabético tem a glicose um pouco acima de 126mg/dl. Através da alimentação e atividade física é possível abaixar a taxa e voltar com a glicose normal.
Carlos Campos atenta também para os sintomas que são urinar muito, boca seca, ter muita sede, muita fome e emagrecimento. Mas afirma que nem sempre a doença apresenta sintomas, ou seja, devem ser feitos exames regularmente, como o de sangue em jejum e a glicemia capilar, mas esta deve ser usada apenas como triagem, pois o da veia é mais precisa. “A alimentação é importantíssima para uma pessoa diabética, pois através dela é que conseguimos manter os níveis de glicose e consequentemente ter uma melhor qualidade de vida”, afirma Adriana Abreu.
Évellyn Mara Marques é mãe de um menino de três anos de idade. O pai da criança é diabético do Tipo I. Mas, por não ser uma doença hereditária, Évellyn Marques não se policia a respeito de dietas para o menino. Ele vai ao médico fazer exames, “mas por ter nascido muito grande”, conta a mãe. A doença de seu namorado não atrapalha na rotina da família e ela pouco mexeu em sua dieta alimentar.
O tratamento é feito com remédios específicos, dieta balanceada, atividade física e aplicações de insulinas, em alguns casos. O endocrinologista afirma a importância de seguir os tratamentos e diz que “um paciente que leva a sério as orientações do médico pode levar uma vida normal”. Por outro lado, a negligência do próprio paciente pode levar a complicações oculares, como a cegueira, problemas de circulação, causando, até mesmo, amputação de algum membro, além de problemas renais e nos nervos. Nos casos mais graves, a internação é inevitável.
Para a nutricionista, as medidas certas para se ter uma melhor qualidade de vida são o controle com o médico, “sempre fazendo o uso das medicações corretas. O controle da alimentação com um profissional de nutrição e atividade física com o auxílio de um profissional”.

Tatuagens, pierciengs a escarificações: o limite entre a dor e a estética

                                                                              Thayná Faria, Bruno Ribeiro e Gabriel Riceputi

Tatuagens, piercings, alargadores e escarificações são práticas de modificações corporais conhecidas também como body art. Cada vez mais comuns, principalmente entre o público jovem, estas alterações no corpo são justificadas pelos que a praticam como uma forma de expressão artística. Para especialistas, como psicólogos, a body art relaciona-se mais com a busca pela afirmação da identidade e, principalmente, pela inserção em grupos sociais. São entendidos como códigos de pertencimento a determinados grupos ou tribos urbanas.
A modificação corporal (body modification, em inglês) é, para os seus praticamente e admiradores, vista como uma expressão artística, por isso a denominam Body art. Francine Oliveira (23) é perfuradora corporal (ou body piercer) e possui vários tipos de modificação como tatuagens, piercings, alargadores e escarificações. Ela conta que body art é todo tipo de expressão artística feita no corpo ou com ele, como maquiagem artística, performances de qualquer tipo (que podem envolver agulhas e suspensão corporal), e pintura corporal.
A escarificação também pode ser bela 
A modificação corporal em si pode designar outro estágio dentro das práticas que envolvem a transformação do corpo: “Modificação corporal, body modification ou body mod envolve uma alteração do corpo mesmo, a ‘longo’ prazo, mas não necessariamente permanente”, diz Francine. O tatuador e body piercer Cleiton Soares, o “Juh” (28), que está no ramo há sete anos, tem visão similar a dela. Segundo ele, a body art engloba todos os tipos de modificação corporal, mas o termo ‘modificação corporal’ refere-se principalmente a “procedimentos que fogem um pouco dos padrões e que geralmente são irreversíveis”.
O ato de transformar ou modificar o corpo geralmente é visto como uma busca por identidade pessoal exclusiva ou forma de sentir-se parte de algum grupo específico. Para Francine, a estética também é um fator considerável. Segundo ela, em relação à body art, 99% dos interessados que a procuram fazem as intervenções por questões estéticas. A popularização das cirurgias plásticas, um avanço auxiliado pela tecnologia e medicina moderna, também comprova essa onda de busca pela perfeição estética, ou padronização, que levam a modificação do próprio ser. O body art ou modificação corporal apenas pode seguir por outra vertente, a de fugir dos padrões de beleza impostos pela sociedade, não deixando, entretanto, de ser bela.


Psicanalista aponta caráter masoquista das práticas de body art
No âmbito da psicologia, a prática da modificação corporal está intimamente ligada a questões de relações sociais. “A noção de beleza está muito associada à noção do fetiche”, diz Hugo Silva Valente, psicólogo com formação na área da psicanálise. Segundo Hugo, toda modificação é uma tentativa de formar um símbolo representante, seja de status, beleza ou verdade. Tal como um rito de passagem, a prática da modificação estética seria uma forma de estabelecer laços sociais e se integrar a um grupo.
Outro fator seria infringir dor ao corpo como forma de obter satisfação. “A psicologia, após 1905 com os trabalhos de Freud, reconhece vários modelos de satisfação que vão contrários à idéia de prazer consciente”, diz Hugo, que esclarece que os dois fatores, fetiche cultural e masoquismo, devem ser vistos como motivações isoladas. “O sujeito pode formar seu símbolo sem necessariamente sentir dor. Um brinco ou um piercing cumprirá a função reservada ao fetiche, mas dificilmente iria satisfazer o sujeito em busca da satisfação pela dor”, explica.
O psicanalista ainda pontua um item importante sobre o masoquismo nessas práticas. “É necessário diferenciar o masoquismo ligado às modificações da prática do body-art, onde a dor cumpre função juntamente com fatores como a integração social, da prática de automutilação, como em casos onde crianças ou adolescentes que, sofrendo de angústia profunda, buscam na dor do corpo um alívio do sofrimento da alma”, esclarece.
Mas o corpo não é o primeiro a passar pelas modificações em função do estabelecimento de laços sociais. Como Hugo destaca, o psiquismo é o primeiro a se adaptar aos símbolos do grupo, modificando o modo de pensar e de se comportar do sujeito. Um indivíduo inserido em uma sociedade estará dependente dos fatores que aquele grupo estabelecer, seja a utilização de gírias ou seguir a moda de vestimenta do momento. “É o que a psicologia chama de processo de identificação”, diz Hugo. “Essa prática fetichista nada mais é do que uma negação do homem à sua própria natureza, sua natureza biológica, em função do símbolo, da adaptação social”, completa.
Toda modificação corporal teria um propósito rumo a uma idealização de imagem, que vai enquadrar o indivíduo dentro da sociedade. No caso das modificações corporais, esse status não estaria ligado à coletividade em geral, mas a subgrupos específicos dentro dela. A moda, por sua vez, quando produz ideais de beleza, também produz a necessidade de modificações corporais, essas as quais já estamos acostumados, como a idéia de ser magra para ser bonita e afins, que influenciam a coletividade. “A exclusão de determinado movimento, ou comportamento, é impulsionada por um movimento correlato, ou seja, para negar um fetiche é necessário que outro fetiche anterior esteja bem fundamentado”, diz Hugo, ilustrando o porquê de práticas de body art serem marginalizadas enquanto outras intervenções estéticas são legitimadas. Tudo faria parte de uma relação de poder entre um fetiche, um modo de pensar, sobre o outro. “Se o fetiche é montado em cima de um objeto aleatório, querer julgar essas formas ‘alternativas’ é absurdo, é querer matar a identidade do outro. Temos medo do diferente, justamente pelo diferente ofender nossos próprios fetiches”, afirma o profissional.


Cuidados
O cirurgião plástico César Tayer diz que o procedimento padrão para quem quer fazer algum tipo de modificação corporal é ficar atento na hora de escolher o estúdio. Esse tipo de cuidado evita complicações posteriores, como o surgimento de quelóides, formação de cicatrizes indesejadas e até contração de doenças mais graves como HIV e Hepatite.
Evite problemas, procure um profissional para fazer sua modificação
Ele afirma que principalmente perfurações intra-orais proporcionam um sério risco de complicações graves como excesso de salivação, alterações na fala e até infecções que, nessa parte do corpo, podem chegar à corrente sanguínea, se espalhar e até levar a morte. O cirurgião considera que cabe ao profissional tomar os cuidados específicos referentes à assepsia do material utilizado, mas que depende do cliente a manutenção e limpeza das jóias, pois a atenção deve ser constante.
Uma realidade perigosa comentada é que muitas pessoas colocam piercings por conta própria, o que eleva consideravelmente o risco de infecção. Esse fenômeno acontece principalmente em modificações mais comuns, que aparentemente não demandam tantos cuidados. Os alargadores de orelha são apontados como uma dessas práticas. Em vez de procurar um profissional, o individuo coloca nas orelhas objetos que podem estar contaminados, sem tomar as precauções adequadas.
Nesse caso também é necessário que o lóbulo não seja alargado de uma só vez e que as expansões não sejam grandes demais, pois há o risco de se rasgar a orelha, ou provocar uma vaso-contrição: isso interrompe a circulação de sangue em uma parte do tecido, levando a esquemia e até a necrose da região. A pessoa pode, inclusive, perder parte do lóbulo e destruir a cartilagem auricular.
O cirurgião alerta que o profissional desta área deve ser capacitado, descartar agulhas e esterilizar os materiais em uma autoclave, máquina própria para realizar a assepsia dos objetos de forma rápida e eficaz. Esse processo é o único permitido por lei, segundo Tayer. Nele esterilizam-se os instrumentos em vapor de alta temperatura e pressão. Ainda de acordo com o cirurgião, “uma modificação corporal envolve os mesmos riscos de qualquer intervenção cirúrgica e, portanto, exige os mesmos cuidados que demanda um procedimento dessa espécie”. Tayer afirma que muitos tatuadores e body piercers sequer conhecem as leis que determinam os cuidados com a esterilização do material.
A body piercer Francine conta que o problema em alguns locais não é totalmente relacionado à esterilização dos objetos, mas sim a falta de cuidado por parte de alguns profissionais, que não têm cuidados de higienização. A falha mais comum é a retirada das luvas antes de terminar totalmente o procedimento, quando, por exemplo, o cliente já se foi, mas ainda restam agulhas para serem jogadas fora. Essa falta de atenção coloca em risco a saúde do próprio profissional, que entra em contato direto com material cortante utilizado no processo. A forma de descartar o que já foi utilizado é a mesma do lixo hospitalar.


Arrependimento
É comum que alguns adeptos da body modification se arrependam de artes em suas peles e desejem retirá-las. Voltar atrás pode ser mais fácil no que diz respeito a perfurações. Segundo Juh, depende do tamanho da jóia, o seu peso e do tempo em que ela se encontra na pele.
Reconstituição do lóbulo
Para Tayer, a pele consegue voltar um pouco ao normal, devido à sua elasticidade natural. Contudo, casos em que o furo é muito grande, situação dos alargadores, por exemplo, apenas a cirurgia plástica consegue retornar a pele ao seu estado anterior.
Com as tatuagens, se arrepender é mais doloroso. Dói bastante para remover, além de ser caro. É o que afirmam em consenso César Tayer e Juh. O cirurgião explica que a remoção de tatuagens é um trabalho para os dermatólogos, mas informa que a remoção a laser funciona razoavelmente bem somente em alguns tipos de tatuagem. As muito coloridas, por exemplo, são mais difíceis de apagar, sendo que o raio laser não consegue remover totalmente tons em vermelho e laranja, diz Juh. Além disso, corre-se o risco de permanecerem marcas na pele. Cada sessão a laser pode custar entre 500 e 800 reais, sendo que algumas tatuagens necessitam de até 10 sessões. A conta total poderia, então, chegar a oito mil reais.


Rituais que marcaram o processo civilizatório do homem
A prática da modificação corporal está longe de ser um fenômeno atual na sociedade. Presente há muito tempo em ritos de passagem de tribos africanas, brasileiras, indianas, e, identificadas também nas culturas egípcias e judaicas, o ato de transformar o próprio corpo pode ser motivado por causas meramente estéticas ou como parte de cerimoniais dentro de determinada cultura.
A modificação corporal que, geralmente, é vista com espanto por parte da sociedade, como, por exemplo, ao contemplarem uma “escarificação”, não e uma prática nova na sociedade. Mulheres e homens de algumas tribos africanas cortam a pele com o intuito de ostentar belas cicatrizes, celebrar o fim de uma determinada etapa da vida e o início de outra ou simplesmente evidenciar pertencimento e até graduação social dentro do grupo.
Absorvida pela cultura ocidental, tem diversas faces e não apenas estas que são vistas como mais radicais. A circuncisão utilizada pelos judeus e implantes de silicone na mama também podem ser tomados como exemplos mais comuns. A tatuagem talvez entre nesse grupo de modificações mais bem vistas pela sociedade, pois tem tornado-se cada vez mais popular.


Alguns tipos de modificação corporal e body art
Escarificação: é um processo permanente, concebido para decorar o corpo, e é considerada valiosa artisticamente por algumas tribos na África Ocidental. É a prática da incisão na pele com um instrumento afiado. Existem diferentes tipos de escarificação, sendo diferenciadas pelo material utilizado e técnicas. Quanto a este material, geralmente é composto por lâminas para cortar ou remover tecidos.

Branding: queimaduras feitas por aço ou laser, cauterização por ferramentas como ferro de solda etc.

Microdermal: o microdermal é uma micro placa que fica sob a pele com uma saída única, em que podem ser rosqueadas peças, que, por sua vez, podem variar desde implantes simples a brilhantes, dando o efeito visual de jóias.

Subdermal: tipo o chifre implantado. PTFE tipo teflon – único debaixo da pele.

Transdermal: surgiu antes do microdermal, possui uma saída feita com incisão cirúrgica além do furo.
Suspensão corporal: é o ato de suspender um corpo humano por meio de ganchos passados por perfurações na pele. Estas perfurações são temporárias e normalmente abertas pouco antes da suspensão ocorrer. Os ganchos de suspensão são feitos especialmente para a prática, e o material utilizado na confecção do mesmo é o aço cirúrgico. São colocados como piercings tradicionais, com agulhas e depois conectados aos ganchos. A localização exata desses ganchos no corpo determina o tipo de suspensão que está sendo executada, e o número de itens instalados geralmente depende do peso da pessoa e seu nível de experiência.

Pulling: feito da mesma forma que a suspensão corporal. Entretanto, não se suspende o corpo, apenas se tenciona a área na qual o gancho se encontra. Pode ser encarada como uma preparação para a suspensão. Os ganchos são menores e encaixados em partes como os antebraços e joelhos.

Juh fazendo uma tatuagem (esquerda) e escarificação da Francine (direita)

Tatuagem: trata-se de um desenho permanente feito na pele. É tecnicamente uma aplicação subcutânea de tinta obtida através de introdução de pigmentos por agulhas, um procedimento que durante muitos séculos foi irreversível. É uma das formas de modificação corporal mais conhecida e cultuada no mundo.

Piercing: perfuração da pele para aplicação de uma jóia.

Alargadores: são peças que mantêm o tecido expandido. A idéia é expandir qualquer tecido para colocação de uma peça maior.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

É grave, Doutor Google?

Autodiagnóstigos tornam-se cada vez mais comuns por buscadores da Web

Carol Slaibi, Eduardo Maia, Natália Giarola e Wanderson Nascimento

 Pesquisa realizada pela Pew Research Center & American Life Project revela que 61% dos adultos nos Estados Unidos procuram na internet informações sobre sua saúde. Esses dados remetem ao fenômeno tratado como cibercondria, caracterizada pela preocupação excessiva e infundada em autoexames e autodiagnósticos baseados em pesquisas realizadas na web.

A pesquisa foi realizada em 2009 e relaciona a cibercondria com o aumento do número de usuários da internet, a partir de uma comparação entre os anos de 2000 e 2009. De acordo com o instituto, 74% dos americanos tem acesso à internet contra apenas 46% em 2000. O estudo também revela que o aumento se deve ao avanço das redes sociais, fóruns de debates, blogs, além do acesso móvel possibilitado pelas redes sem fio.
Os números impressionam, pois, ao se realizar esta pesquisa utilizando “dor de cabeça”, o buscador gerou cerca de 2,4 milhões de resultados. Uma simples dor de cabeça numa rápida busca no “Dr. Google” pode ser considerada como sintomas de uma doença neurológica grave.
Um exemplo demonstrado pelo buscador é um artigo do site “Artigonal”, que associa a dor de cabeça como uma das causas para o tumor cerebral. “O grande problema é que na internet tem de tudo e, por ser território livre, não temos o menor controle sobre a informação que está postada. Tanto pode ser uma informação seríssima como pode ser a maior ‘picaretagem’ e o paciente não tem como saber”, afirma a assessora especial da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), Fátima Vasconcelos, em entrevista à revista Super Saudável de fevereiro de 2011.
O clínico geral Hélio Pinto de Souza adverte sobre os riscos do autodiagnóstico e da automedicação. “Isso pode acarretar consequências graves, uma vez que pode levar o paciente a se automedicar, podendo não surtir nenhum efeito ou ainda piorar seu estado de saúde. Por isso, é imprescindível que se procure um médico antes de tirar qualquer conclusão sobre os sintomas ou alguma doença”, declara.
Em uma busca sobre as possíveis causas de uma dor de cabeça, a funcionária pública Maria Aparecida Haddad, 49, São João del-Rei, descobriu um câncer, diagnosticado posteriormente pelo seu médico. “Continuei investigando e, no final das contas, era um câncer de tireóide. Fiquei extremamente apavorada e cheguei inclusive à automedicação”, revela.
Haddad não tem nenhum receio em assumir suas consultas à internet para a solução de quaisquer problemas relacionados à sua saúde, mas admite que seus médicos são contrários a estes atos. “Li na internet sobre um método de retirada do sangue com a aplicação no próprio músculo (método de auto-hemoterapia) e estava propensa a fazer. Conversei com minha endócrina e ela me proibiu terminantemente. Ela disse ser um procedimento que não é aceito pela Sociedade Brasileira de Medicina”, declara.
Imagem: saude-joni.blogspot.com

Cibercondria e Hipocondria

Na relação entre cibercondria e hipocondria, a psiquiatra Fátima Vasconcelos atenta para a gravidade do excesso de informação aos hipocondríacos. “A cibercondria é um agravamento, uma piora do sintoma da hipocondria, porque, agora, o indivíduo vai estar embasado em informações. Se o hipocondríaco, quando vai ao médico, não se satisfizer com a informação, vai acabar aprofundando sua pesquisa na internet, vai finalmente acreditar no que encontrar e vai sofrer”, afirma.
A hipocondria, segundo a psicanalista Maria das Mercês Carvalho, é um transtorno emocional somatoforme, isto é,  estado em que as emoções passam  do psiquíco para o orgânico. Baseada no Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais “trata-se mais de um sintoma que de uma doença, forma mal adaptada da pessoa reagir a alguma coisa. A pessoa sente-se doente apesar da ausência da patologia, sofre realmente por isso”, explica a psicanalista.
Além de acentuar a preocupação pela própria saúde nas pessoas predispostas à hipocondria, ou diretamente piorar o estado dos hipocondríacos declarados, alguns especialistas acreditam que a medicina na internet pode originar uma legião de afetados pela "cibercondria”. Especializada em psicologia clínica, Aparecida Mercês Silva acredita que “muitas vezes o paciente está mascarando outro sintoma de outra coisa que ele possa ter como insegurança, sentimento de solidão, fobias, culpa, negação de algum sentimento ou comportamento”, afirma.
A psicóloga explica que “o tratamento para a hipocondria pode ser realizado de forma multidisciplinar, às vezes com mais de um médico, como, por exemplo, um gastro, neurologista ou psiquiatra. Mas é essencial que o paciente queira se tratar. A partir dessa atitude, ele começa a ter elaborações de suas próprias vivências e vai se autoconhecendo”.
Aparecida Silva ainda adverte que, de uma forma inconsciente, o indivíduo pode gostar da forma como vive. “Por criar hábito em relação à própria doença, o sintoma do paciente apresenta melhoras; podem aparecer outros sintomas e, se houver novas melhoras, ele pode realmente ficar doente. São os chamados sintomas psicossomáticos”, esclarece.

Sem solidão

A psiquiatra Fátima Vasconcellos acredita que o acesso à internet se torna patológico à medida que a pessoa deixa de conviver com outras pessoas. A internet é usada para preencher o espaço de solidão, mas o ser humano é movido a pessoas.
Segundo a psiquiatra, há relatos de indivíduos que ficam jogando no computador por três, quatro dias direto. “Tive um paciente que simplesmente parou de trabalhar, porque ficava só testando joguinhos. Ele já deixava a porta da casa aberta e pedia comida pelo telefone para não perder tempo, para não parar, para não largar o computador”, relata.
Essa perda de controle diante da internet é um tipo do transtorno dos impulsos como o uso de drogas, em que o dependente não tem o menor controle, simplesmente não consegue parar. “Quando o indivíduo passa a usar a internet como substituto das relações humanas, isso indica um problema. Se a internet serve para melhorar as relações humanas, para facilitar a vida, está perfeito”, conclui Fátima.